Não metaforicamente. Uma sandália de borracha, cor-de-rosa, com glitter, tamanho infantil, que acertou minha testa numa manhã de terça-feira enquanto eu estava em posição de lótus no terceiro andar da minha casa em Florianópolis, convicto de que a Kundalini estava finalmente percorrendo minha coluna vertebral em direção à iluminação.
A iluminação foi interrompida. A história começou.
Escrevi este livro porque acho que sou um caso clínico útil. Não no sentido médico, embora um neurologista tenha encontrado evidências de um pequeno AVC que apagou dez anos da minha memória e que uso aqui como recurso narrativo. No sentido de que percursos como o meu, do extremo ao extremo, da magreza ideológica dos 42 kg à substância de uma vida construída com carne, fé e livre mercado, são mais comuns do que a narrativa dominante admite.
Muita gente que conheço fez esse caminho em silêncio. Mudou de ideia sobre política, sobre alimentação, sobre espiritualidade, e não disse nada porque o custo social de dizer é alto. O grupo de WhatsApp expulsa. O algoritmo pune. Os amigos antigos olham com aquela mistura específica de pena e traição que só existe quando alguém que deveria concordar decide pensar.
Eu resolvi dizer.
Este livro não é panfleto. É memória. É o relato honesto de um homem que foi criado com Darcy Ribeiro na estante e Leonardo Boff na boca da mãe, que se filiou ao PSTU aos dezoito anos porque o PT era direita demais para ser esquerda de verdade, que passou meses na Índia e outros tantos num ashram da Califórnia buscando Deus em sânscrito, e que encontrou Deus de volta onde havia começado: numa missa campal de Corpus Christi numa igrejinha açoriana do Ribeirão da Ilha, com as lágrimas descendo enquanto o padre erguia a Custódia.
Se você está nesse caminho, ou conhece alguém que está, este livro é para você.
Se você está convicto de que está do lado certo da história e que os que discordam de você merecem apodrecer na cadeia, este livro também é para você. Vai doer um pouco mais.
Florianópolis, 2026


